Neurociência e Dança | Dançar é a mais nova fonte de juventude?

Nas últimas semanas, minha timeline e a de muitos outros colegas foram preenchidas por dezenas de compartilhamentos da matéria de divulgação científica Dancing can reverse the signs of aging in the brain (algo em português como “Dançar pode reverter os sinais de envelhecimento no cérebro”).

O texto tem como base uma publicação de 2017 da Kathrin Rehfeld e sua equipe do German Center for Neurodegenerative Disease da cidade de Magdeburgo na Alemanha, além de pesquisadores associados.

O título chama atenção pelo uso da palavra [reverter] e fui dar uma olhada no artigo bruto para descobrir um pouco mais sobre o estudo e tirar da frente as centenas de “neurobobagens” que circulam pelas redes.

A publicação foi realizada na revista Frontiers in Human Neuroscience, uma das mais respeitadas revistas do ramo e com revisão por pares, o que significa que o estudo antes de ser publicado passou por um processo de análise e crítica realizados por pesquisadores especialistas e com capacidade para averiguar a seriedade do estudo como um todo e sua relevância para a comunidade científica e para a sociedade em geral.

Então, de cara, o artigo já começou muito bem… (e assim continuou, já adiantando). Porém, alguns assuntos precisam ser trazidos na discussão por nós que nos propomos a estudar, ensinar e compartilhar materiais desse porte e impacto.

De uma maneira muito simplificada, o estudo utilizou dois grupos para monitorar o desempenho em equilíbrio, e possíveis modificações no hipocampo (uma região associada à memória, aprendizagem, orientação espacial e outras funções ainda não muito bem descritas até agora).

Um dos grupos permaneceu por 18 meses frequentando aulas de bicicleta, alongamento e força, já o segundo grupo frequentou aulas de dança com diferentes estímulos (do jazz ao mambo, passando pelos chassés, skips e hops).

Agora vamos aos fatos, digo, os resultados!

O estudo apresenta um aumento no volume do hipocampo em ambos os grupos, tanto para quem fez um treino padrão de fitness, quanto para o grupo que frequentou as aulas de dança. Somente no volume do giro denteado (uma subparte do hipocampo) o grupo-dança apresentou um aumento relevante não observado no outro grupo.

A grande questão aqui é que essa região do hipocampo é uma das poucas no cérebro em que ocorre a neurogênese, ou seja, a produção de novos neurônios na vida adulta. Contudo, ainda não é possível correlacionar o aumento no volume do giro denteado, a neurogênese e a dança.

Inclusive o artigo deixa isso bem claro na discussão, pois, esse aumento observado pode estar relacionado à própria atividade persistente dos neurônios estimulada pela atividade física ou ainda pelo aumento de outros tipos de células presentes no cérebro que envolvem essa área.

Ok, então o título é uma falácia?

Minha resposta é não!

O grupo-dança apresentou um aumento expressivo na pontuação dos testes de equilíbrio e isso se deve provavelmente ao fato do treino em dança associar contribuições do sistema visual, somatosensorial e vestibular.

Por si só a manutenção do equilíbrio em idosos reúne em si uma série de elementos protetivos à quedas, a manutenção da marcha e a preservação do movimento.

Além disso, os autores exibem de maneira muito clara que a estimulação do sistema sensorial tem apresentado ser crucial para a manutenção da formação de novos neurônios, essa é a grande questão (ao meu ver) que o artigo traz.

Para isso, eles trazem o exemplo de um trabalho realizado em camundongos que demonstrou que estes ao correrem em uma roda apresentavam a geração de novos neurônios no hipocampo, contudo, esses neurônios sobreviviam apenas no grupo em que recebia estímulos sensoriais ao correr na roda (Kempermann, et al., 2010).

Por fim, esse texto não tem o objetivo de colocar no mesmo saco as atividades físicas e afirmar que não importa o que você faça de movimento, apenas faça.

Não!

Mas retoma (e isso a educação somática está há décadas dizendo) que a sensibilização, o estímulo novo, a surpresa, o prazer e a ludicidade precisam envolver uma prática em dança.

dançar aumenta a juventude

Nesse sentido, aulas coreografadas que repetem suas sequências semana a semana sem a inclusão de elementos novos continuarão a trazer os benefícios descritos tanto neste trabalho quanto em muitos outros já apresentados, mas se colocam à margem de uma perspectiva de treino corporal e artístico capaz de alimentar processos mais complexos.

Não sei se reverter seria uma boa palavra a ser usada, mas pensando em divulgação científica algo precisa ser feito para atingir a sociedade e fazer o conhecimento científico girar, pois, de fato, não se observa uma fonte da juventude na sala de dança, embora exista um universo de subjetividades capaz de perceber e dizer o contrário (mas isso é uma outra longa história…).

E agora, por fim mesmo, dance! Preferencialmente dance com o novo, com aquilo que faz seus pelos arrepiarem, com meias, descalços, com sapatilhas, com uma meia e uma sapatilha, na grama, na areia, nas pedras, no silêncio, no escuro, na chuva.

Para os professores, se repetirem sequências, variem os estímulos sonoros, as direções, surpreenda seu aluno! Dance explorando seus sentidos e reverta não só uma percepção dos sinais da idade, mas reverta talvez uma vida inteira de movimento sem sentido, sem vida.

Deixem mover!

(Ah, a matéria é essa daqui: https://medicalxpress.com/…/2017-08-reverse-aging-brain.html)

Referencia: Kathrin Rehfeld, Patrick Müller, Norman Aye, Marlen Schmicker, Milos Dordevic, Jörn Kaufmann, Anita Hökelmann, Notger G. Müller. Dancing or Fitness Sport? The Effects of Two Training Programs on Hippocampal Plasticity and Balance Abilities in Healthy Seniors. Frontiers in Human Neuroscience, 2017; 11 DOI: 10.3389/fnhum.2017.00305

 

Autor: MAERCIO MAIA

Bailarino e educador do movimento, é professor de técnica clássica e dança contemporânea, professor certificado do método RP2 de Mobilidade Funcional e estuda neurociência desde 2015 pela Universidade Federal do ABC.

Deixe um comentário